Segunda-feira, Maio 05, 2008

O Livro Sagrado

A Bíblia é um livro cheio de nuances que são freqüentemente ignoradas. Os ortodoxos cristãos se pudessem provavelmente tirariam vários trechos e acrescentariam outros, o que não seria nenhuma surpresa dado o histórico. O fato é: temos casos de filhas tendo filhos com o pai bêbado (Gn 19: 30-38); servos de Deus mentirosos (Gn 27); poligamia (Gn 29); um caso estranho de incesto entre sogro e nora (Gn 38); morte de crianças e mulheres inocentes (Js 6: 21); um rei que tinha o coração em sintonia com o de Deus e mesmos assim matou o marido de uma mulher somente para ficar com ela (2Sm 11), enfim, são inúmeros os exemplos bíblicos das maldades que o coração humano pode conceber.

Ao longo de anos criou-se a imagem de que as histórias bíblicas estão cheias de florzinhas, pessoas rindo e fala leve por parte de um narrador calmo e tranqüilo. Muitos ateus, criticam a maior religião ocidental, que não por mero acaso nasceu no oriente, justamente pelo fato de os cristãos negarem, ou ao menos tentarem, a natureza corrupta humana. É certo que existe uma famosa doutrina cristã chamada mortificação, mas ela não está ligada de maneira alguma à fantasia de que somos todos perfeitos, muito pelo contrário, a mortificação prega antes de tudo que somos todos miseráveis em nossa natureza e que esse reconhecimento é grande parte do conhecimento de quem realmente é Deus.

Os padrões de santidade da igreja atual exigem um nível de hipocrisia que nem o melhor ator consegue alcançar. A proibição do pecado não ocorre por seguir um livro sagrado mas sim para que a demagogia fique cada vez maior.

A Bíblia é um livro que antes de tudo mostra a natureza humana como ela realmente é: capaz de atrocidades que nós mesmos condenamos. Líderes ditos espirituais negam totalmente o caráter divino de soberania quando assumem em palavras subliminares a idéia de que o prazer foi nos dado para nossa prova. Fala-se de um deus que não liga para os desejos humanos, como se não tivesse sido o próprio Deus que colocou tais desejos. A grande diferença está na escolha entre satisfazer unicamente esses desejos ou não, oras, mas disso todos sabemos. O que não sabemos ou não queremos saber é que Deus fala sim através de nossos erros, tanto é que não foi à toa que Cristo morreu na cruz, por mais clichê que isso possa soar.

Quinta-feira, Maio 01, 2008

Blogagem Coletiva - Abre Aspas

Extremamente atrasado somente agora posso participar de uma bela proposta pelo blog Acqua. Trata-se de mostrar um pouco de poesia que lemos, apresentando um pouco a biografia do autor.



Escolhi Augusto dos Anjos, um poeta um tanto quanto não compreendido, talvez por usar termos um tanto quanto científicos sua poesia se torna pesada de ser lida e conseqüentemente assume um ar de pessimismo e sombriedade muito grande.

Abaixo algumas poesias:

O MORCEGO

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!


A IDÉIA


De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!


A ÁRVORE DA SERRA

- As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma...

- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:
"Não mate a árvore, pai, para que eu viva!"
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!


O livro "Eu e outras poesias", das quais tirei essas poesias, encontra-se disponível para download no domínio público, assim como algumas outras obras

Especificamente recomendo alguns outros poetas que tenho lido ultimamente:

- T.S. Eliot
- Florbela Espanca - Download do livro "Sonetos Completos"
- Fernando Pessoa - Várias obras para download
- Gregório de Matos - Todas obras (creio) para download
- Nicholas Behr

Sexta-feira, Abril 25, 2008

O Sinal

A ação sempre é motivada. Mesmo que o motivo seja inconsciente atendemos a vários conceitos anteriores. Por exemplo, um religioso cristão atende alguém em um pseudo ato altruísta motivado por seu pré-conceito de que com isso alcançará algo, seja a salvação ou a satisfação pessoal. Longe de discutirmos o fato do motivo ser válido ou não, é certo observar que toda ação é provinda de uma motivação.

Infelizmente grande parte do que fazemos depende de um fator motivador externo, alguns costumam dizer que estão esperando um sinal para fazer algo. É nesse ponto que o problema ocorre, o dito "sinal" é tão pessoal que não é um sinal em si, é a própria vontade inerte, só adiando o que já deveria ter sido feito. Temos momentos para fazer coisas em nossas vidas, dizemos que esperamos por algo justamente para que o momento certo seja contemplado. No entanto, nunca haverá essa certeza em totalidade nas nossas vidas, estamos todos sujeitos as mesmas intempéries, incertezas e angústias. A beleza da vida, tão buscada e tão discutida, está justamente na certeza de que o próximo minuto será tão incerto que será uma surpresa.

O maior sinal que podemos ter para agirmos é o da própria vida em si. Não usemos de tal artifício para adiarmos os vários projetos e ações que temos, ou ao menos sejamos sinceros para assumirmos nosso estado letárgico, afinal essa decisão também é uma ação que não depende de sinal algum.

Sexta-feira, Abril 18, 2008

Analfabetismo

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva promovida pela Georgia do Saia Justa e pela Meire do Pensiere e Parole





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Para falarmos de analfabetismo creio ser importante dividirmos tal conceito em dois, o conceito puro: aquele que não sabe ler e escrever; e o conceito estendido: o que é analfabeto por não ter senso crítico devido à educação falha. Em ambos os casos temos como principal causa talvez, a falta da prática do que existe na lei, especificamente a leiDarcy Ribeiro, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (nº 9394/96), que prevê, dentre muitos fatores, a igualdade de condições para o acesso e permanência na escola.

O analfabeto em sentido stricto, ou mesmo aquele que somente sabe desenhar seu nome, ainda existe no Brasil por conta primariamente de fatores sócio-econômicos; é uma obviedade sem tamanho essa, e mesmo assim não existem políticas públicas práticas quanto à garantia constitucional de educação. Escrevi um tempo atrás sobre minha visão pessoal sobre essa questão. Salários baixos, antes somente em áreas rurais, atualmente também nas áreas urbanas marginalizadas, fazem com que, cada vez mais cedo, crianças tenham de trabalhar para complementar o salário familiar. O êxodo migratório para cidades grandes é um fator que cresce durante anos e anos e nada é feito para que a infra-estrutura de lugares mais carentes possa melhorar.

Apesar de vermos tais causas como sendo grandiosas para o alcance do cidadão comum, o analfabetismo pode e deve ser sanado através dos vários instrumentos já existentes. Legalmente, é dever do Estado a oferta de educação escolar regular para jovens e adultos. Primordialmente, deve-se cobrar das autoridades locais essa garantia de acesso à escola. É dito no Art. 37 "§ 2º O Poder Público viabilizará e estimulará o acesso e a permanência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares entre si.". Ações de ONG´s contra o analfabetismo são importantes, mas combater a corrupção cobrando a ação mais precisa do governo é primordial. Um fator importantíssimo a ser considerado na resolução desse grande problema no Brasil e que está ao alcance de todos é o incentivo ao estudo. Não é difícil encontrar alguém que não seja alfabetizado, se existem várias formas de se ter acesso a educação porque tais pessoas continuam sem querer isso? Motivação é a palavra-chave nesse caso, mostrar as vantagens de saber ler e escrever é um papel que todos nós podemos desempenhar.

O analfabeto no sentido estendido, digo, aquele que é alfabetizado mas não tem senso crítico, não sabe filtrar informações que lhe são chegadas, é o resultado de um processo de formação premeditada, diz a cartilha da teoria da conspiração, somos todos formados com objetivo de seguirmos um plano preestabelecido. Longe de entrarmos no mérito da discussão sobre isso ser uma paranóia ou um fato, devemos nos atentar ao que a realidade nos mostra. É fato, por exemplo, que a consciência política brasileira está longe de ser uma consciência, é no máximo uma indignação que resulta em nada, justamente pela falta de conhecimento da força que uma multidão pode ter politicamente.

Esse segundo problema deve ser encarado com seriedade, afinal uma sociedade dita democrática só funciona e cresce debaixo de críticas e discussões. A resolução está ligada principalmente a maneira como a educação é passada, atualmente não se ensina os motivos pelos quais se aprende algo, qual a aplicação prática daquilo. Alguns alunos ainda questionam porque aprendem coisas que "nunca mais verão em suas vidas", alunos esses são geralmente recriminados sem terem, no entanto, seu questionamento respondido. Fica o apelo para os docentes, que com certeza, tiverem boa formação acadêmica; aplicar conhecimento é a melhor forma de fixar e manter uma mente aberta às críticas que durante toda a vida estaremos expostos. Já dizia Monteiro Lobato: "Quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê"


Deixo ainda duas músicas que refletem a divisão que aqui estabeleci no conceito de analfabetismo.
A primeira é de um grupo punk chamado Mukeka di Rato com a música Minha Escolinha. O vídeo é uma montagem, sendo assim gostaria de destacar mais a letra da música em si. Para quem não gosta do estilo leia a letra:




A segunda música é do Gabriel Pensador, Estudo errado:







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Gostaria de pedir desculpas por não visitar os blogs que gosto nesses últimos dias e também por não responder os comentários, foi mal galera, tá bastante corrido.

Sexta-feira, Abril 11, 2008

Citações XVII - T.S. Eliot


"Em um minuto há tempo
para decisões e revisões que um minuto revoga"

Poesia
T.S. Eliot






O tempo, sempre em voga nas discussões filosóficas, é o que nos perturba com mais força. Como definí-lo? Por relógios automáticos marcando minutos e segundos dando a falsa sensação de que o tempo corre de forma igual para todos?

Todos já ouvimos expressões como "o tempo passou voando hoje", afinal o prazer nos causa a letargia, ficamos extasiados perante o momento. Como Eliot poetizou, usemos a mesma "quantidade" de tempo para decisões que usamos para as revisões delas. Soa confusa a frase, mas o cerne da questão está em deixar que as decisões levem o tempo que for necessário para que se resolvam, ou para que as resolvamos.

Aproveitar o tempo é, sem dúvida, um dos grandes desafios que podemos enfrentar enquanto estamos inseridos no espaço temporal. E como aproveitar? Oras, fazendo com que ele passe rápido através da letargia prazerosa do viver.

Domingo, Abril 06, 2008

Quase

Quase arrisquei
Quase me machuquei
Quase me sujei
Quase pulei

Quase falei
Quase me apaixonei
Quase me amei
Quase tentei

Quase fui feliz
Quase vivi

Por pouco tentei
Felicidade era a busca
Me perdi no objetivo
Talvez por ser centrado
Talvez por ser desanimado

A homenagem póstuma
deve-se ao fato
de não ser merecedor em vida?
Ou ao fato de não perceber
a homenagem da vida?
Seja através do respirar
Seja através das amizades
Tudo muito clichê
Tudo muito bonito

Não é a vida no fim das contas
uma repetição infinda?
A originalidade está aonde?
Talvez na forma como se vê
Talvez na forma como se sente

Os ortodoxos que me perdoem
mas a dúvida sobre algo
traz mais conforto
do que a certeza absoluta sobre tudo

E o quase?
É a dúvida expressa?
O quase é covarde
A dúvida é corajosa

Quinta-feira, Abril 03, 2008

Obrigatório

Antes de mais nada gostaria de agradecer pelo novo banner que está no blog.

O Fabrício, através de uma conversa no twitter, fez esse banner bem 2.0. Sendo assim deixo aqui, meu muito obrigado publicamente. Fiquem à vontade para visitar o belo trabalho do cara no seu portfolio.


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Tudo que é obrigatório não é atrativo, em maioria. Digo: o que é obrigatório que não necessariamente vá contra a lei, é tedioso.

Geralmente o oposto do obrigatório: o proibido, é o que mais causa prazer, não pelo ato em si, mas pelo simples desobedecer; parece uma constatação preconceituosa de adultos sobre adolescentes. No entanto, basta vermos nossas ações e a conclusão será simples: o que deixa seu nome na história é o revolucionário, justamente por ter coragem de quebrar regras, já o que vive sua vida sob o jugo dos outros é tido como um mero fatalista. Exaltamos o revolucionário, usamos como o símbolo do nosso pensamento e ao mesmo tempo humilhamos o que segue as regras impostas pelo revolucionário. Afinal de contas, por que tamanha contradição? Não seria capaz de existir a utopia do senso crítico generalizado?

Ao analisarmos friamente o que ocorre em grandes revoluções democráticas veremos a imposição pela anarquia de uma democracia baseada na autocracia. Revolucionários em igualdade derrubam ou desfazem algo que não lhes agrada, após isso constituem uma liberdade aparente para, logo após, governarem soberanamente de forma absolutista. O interessante de se notar historicamente é o grande ciclo que se estabelece nesse tipo de ações. Um aparente homem do povo assume o poder e vira um déspota, surge outro também se torna igual ou pior que o primeiro e assim a história vem se repetindo.

O grande ciclo eterno de ações humanas proposta por George Orwell é tão presente nas nossas ações que quando se assume um "dito" poder, as ações serão moldadas pelo novo nível estabelecido de forma tão natural que dificilmente você será rechaçado por isso. Os que se incomodam são os reformadores, revolucionários, de oposição, que quando conseguem fugir da regra estabelecida por alguém - que já foi igual a um deles - são exaltados.

O senso crítico generalizado proposto pela grande maioria das reformas e dos opositores só se é importante quando o interesse pessoal não é atingido. A regra imposta atualmente é a do senso crítico com ressalvas. A crítica estabelece uma obrigatoriedade que afeta de maneira negativa somente os que se opõem a ela, e o que é a oposição de idéias, senão a oposição de interesses pessoais? Utopia grandiosa é pensar que todos chegariam a um nível de crítica suportado por todos. A medida de pensamentos não é dada pela mera razão, mas muitas vezes pela pura força. Razão, crítica, bom-senso e afins são palavras bonitas na fala do grande revolucionário, mas na prática armas e violência (sejam elas reais ou psicológicas) são as que retornam sucesso para as idéias do contra-obrigatoriedade.