Quinta-feira, Maio 01, 2008

Blogagem Coletiva - Abre Aspas

Extremamente atrasado somente agora posso participar de uma bela proposta pelo blog Acqua. Trata-se de mostrar um pouco de poesia que lemos, apresentando um pouco a biografia do autor.



Escolhi Augusto dos Anjos, um poeta um tanto quanto não compreendido, talvez por usar termos um tanto quanto científicos sua poesia se torna pesada de ser lida e conseqüentemente assume um ar de pessimismo e sombriedade muito grande.

Abaixo algumas poesias:

O MORCEGO

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!


A IDÉIA


De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!


A ÁRVORE DA SERRA

- As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma...

- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:
"Não mate a árvore, pai, para que eu viva!"
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!


O livro "Eu e outras poesias", das quais tirei essas poesias, encontra-se disponível para download no domínio público, assim como algumas outras obras

Especificamente recomendo alguns outros poetas que tenho lido ultimamente:

- T.S. Eliot
- Florbela Espanca - Download do livro "Sonetos Completos"
- Fernando Pessoa - Várias obras para download
- Gregório de Matos - Todas obras (creio) para download
- Nicholas Behr

4 comentários:

Mau Camus disse...

Augusto dos Anjos é sempre uma ótima pedida.

ricardo disse...


Augusto dos Anjos é muito legal, tenho aprendido a gostar de Fernando Pessoa também...

[ ]'s ricardo

Éverton Vidal disse...

Augusto dos Anjos é fantástico. Já o li muito. Confesso que enjoei um pouco até rs. Fernando Pessoa é incrível. T.S. Eliot preciso conhecer melhor.

Como é que faz pra participar dessa blogagem coletiva? Já passou? rs

Inté!

Lion of Zion disse...

Só aqui tem dois autores que são queridos por mim.

Augusto dos Anjos e Florbela Espanca. Só faltou Antero de Quental e Mario Quintana para fechar a turminha.