Na catedral
Lia Bukowski, pensava na falta de pudor de Gregório de Matos e ouvia uma coletânea de Black Metal. Algo subversivo unicamente pelo fato de estar em uma grande catedral católica enquanto muitas outras pessoas repetiam gestos e diálogos respeitosos.
Imaginava que a pessoa a sua frente, com fones nos ouvidos e olhos em palavras, estivesse fazendo o justo oposto. Quem sabe lendo Agostinho e ouvindo Bach, enfim, praticando uma subversão politicamente correta.
Enquanto afrescos com figuras papais lhe acometiam calafrios sua mente era pura libertinagem. Admirava a arquitetura não mais que um corpo nu e era essa comparação que lhe fazia estremecer perante esculturas insípidas e mortas porém belas.
Achegavam-se ao altar vários fiéis que passavam rotineiramente os hábitos no sentido comum da palavra religiosidade. Um anjo empunhando sua espada desembanhada tentava causar terror naqueles que tinham pensamentos como os seus. Mal sabia seu escultor: arte não foi feita para aterrorizar, talvez para causar espanto quiçá surpresa.
Uma coisa não podia-se negar: aquele levantamento de pedras erijido de forma criativa agregava. E o melhor: a agregação era de pessoas diversas assim como seus motivos para estarem no local.
O estrangeiro falando em sua língua nativa, somente admirando mais um monumento. Aquele turista que reservou o dia para fazer algo mais interessante mas, devido a chuva teve de entrar naquela igreja. O fiel que se sente seguro para fazer suas preces. Aquele trabalhador que no horário de almoço só quer um pouco de silêncio. O estudante que precisa ler um livro para o dia seguinte. O mendigo que quer unicamente se lamentar e dormir.
Em todos eles é possível se observar seriedade, dureza no olhar. Um lugar que, em tese, traz paz deveria ser de rostos alegres ou no mínimo perspicazes. No entanto creio o objetivo de toda aquela frieza escultural seja a lembrança de que há vida após a morte. Há tanta beleza no barulho da natureza que religiosos preferem o silêncio da construção sepulcral. Mal sabem que basta livrar-se de alguns pensamentos pré-estabelecidos para também admirar a vida terrena. Afinal o que é viver senão morrer? Não o se aproximar da morte. Mas sim morrer a cada átimo de segundo. Fabricar lembranças é viver e também morrer. Começo e fim são meras conceituações daquilo que dizemos saber.
Virou-se e a beleza estampou-se a sua frente. Bela mulher que escasseia sua juventude que é, como disse Machado: "uma gota de cristal", frágil e pronta cair, em uma igreja com práticas ascéticas. No entanto, quem era ele para dizer tal coisa? Julgaria alguém por um único ato? Impulsivo e impensado o maldito pensamento. Veja por exemplo, o mendigo que, pensava ele, queria somente se lamentar e dormir, em atitude louvável por clérigos levanta-se e desaba sobre seus joelhos perfazendo-se de fiel fervoroso. Talvez também fosse. Pré-julgamentos ah se não os tivéssemos!
Imaginava que a pessoa a sua frente, com fones nos ouvidos e olhos em palavras, estivesse fazendo o justo oposto. Quem sabe lendo Agostinho e ouvindo Bach, enfim, praticando uma subversão politicamente correta.
Enquanto afrescos com figuras papais lhe acometiam calafrios sua mente era pura libertinagem. Admirava a arquitetura não mais que um corpo nu e era essa comparação que lhe fazia estremecer perante esculturas insípidas e mortas porém belas.
Achegavam-se ao altar vários fiéis que passavam rotineiramente os hábitos no sentido comum da palavra religiosidade. Um anjo empunhando sua espada desembanhada tentava causar terror naqueles que tinham pensamentos como os seus. Mal sabia seu escultor: arte não foi feita para aterrorizar, talvez para causar espanto quiçá surpresa.
Uma coisa não podia-se negar: aquele levantamento de pedras erijido de forma criativa agregava. E o melhor: a agregação era de pessoas diversas assim como seus motivos para estarem no local.
O estrangeiro falando em sua língua nativa, somente admirando mais um monumento. Aquele turista que reservou o dia para fazer algo mais interessante mas, devido a chuva teve de entrar naquela igreja. O fiel que se sente seguro para fazer suas preces. Aquele trabalhador que no horário de almoço só quer um pouco de silêncio. O estudante que precisa ler um livro para o dia seguinte. O mendigo que quer unicamente se lamentar e dormir.
Em todos eles é possível se observar seriedade, dureza no olhar. Um lugar que, em tese, traz paz deveria ser de rostos alegres ou no mínimo perspicazes. No entanto creio o objetivo de toda aquela frieza escultural seja a lembrança de que há vida após a morte. Há tanta beleza no barulho da natureza que religiosos preferem o silêncio da construção sepulcral. Mal sabem que basta livrar-se de alguns pensamentos pré-estabelecidos para também admirar a vida terrena. Afinal o que é viver senão morrer? Não o se aproximar da morte. Mas sim morrer a cada átimo de segundo. Fabricar lembranças é viver e também morrer. Começo e fim são meras conceituações daquilo que dizemos saber.
Virou-se e a beleza estampou-se a sua frente. Bela mulher que escasseia sua juventude que é, como disse Machado: "uma gota de cristal", frágil e pronta cair, em uma igreja com práticas ascéticas. No entanto, quem era ele para dizer tal coisa? Julgaria alguém por um único ato? Impulsivo e impensado o maldito pensamento. Veja por exemplo, o mendigo que, pensava ele, queria somente se lamentar e dormir, em atitude louvável por clérigos levanta-se e desaba sobre seus joelhos perfazendo-se de fiel fervoroso. Talvez também fosse. Pré-julgamentos ah se não os tivéssemos!



5 comentários:
Texto escrito com maestria, referências...
Vê-se que é bom pela escassez dos comentários, que não aparecem por ser trabalhoso penetrar no sentido de tão subversivas idéias.
Abs1
essa coisa do julgar, criar estereótipos é constante na nossa convivência. feliz é aquele que consegue se desvencilhar nem que seja por um pouco dessa prática que não permite que encontremos o próximo!
Não sei se é lembrança ou esperança e esse lugar de tanta dureza pode trazer segurança. Diante da pequenez humana, foram necessárias grandes obras para expor esse fervor. Beijus
Tentar comentar seria besteira mesmo. Melhor ler e aproveitar. Realmente muito bom.
acho q a única forma de eliminar o pré-julgamento é apagando as experiências. São elas q nos preparam para a seguinte e guiam o nosso senso crítico.
Talvez pela falta dela é q as crianças são tão inocentes..
mas é uma faca de dois legumes.. rs
apegar-se de mais a elas torna tudo previsível.. desapegar-se completamente nos deixa vulneráveis em um mundo que nem sempre é tão belo.....
bjs!
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