Sábado, Maio 30, 2009

Super-homem



“O que é bom? Tudo que eleve no homem o sentimento de potência, a vontade de potência, a própria potência. O que é ruim? Tudo que advém da fraqueza. O que é felicidade? O sentimento de que a potência cresce, de que uma barreira é superada. Os débeis e os disformes devem sucumbir: primeira regra do nosso amor ao homem. E para isso ainda devemos ajudá-los. O que é mais prejudicial do que qualquer vício? A compaixão ativa com todos os deficientes e fracos: o cristianismo”.

Nietzsche


O Super-homem apresentado por Nietzsche é aquele que supera valores considerados cristãos como a compaixão, humildade e culpa. Ou seja, para o filósofo, só haveria evolução intelectual humana se a compaixão que cria a moral fosse questionada. Se na evolução os mais fracos ficam para trás, os humildes, fracos intelectualmente, culpados e acusadores também deveriam ficar.

Longe de fazer apologia a algum tipo de facismo ou nazismo, a ideia não era fazer com que eliminássemos fisicamente os pobres e fracos (apesar de alguns ainda pensarem assim) mas que deixássemos de lado o exaltar a humildade, modéstia e culpa.

No cristianismo temos de forma bem clara uma oposição clara a esse tipo de pensamento. O que dizer de Paulo quando afirma: "Quando estou fraco aí é que sou forte"? Não seria essa uma exaltação explícita da elevação do fraco ao topo da moral? Ou ainda, o que dizer do Sermão da Montanha, onde os chorosos, pobres e fracos tem mais lugar do que aquele que é considerado forte, que não se utiliza de modéstia em momento algum?

A religião cristã vem se moldando e atualmente tem um sincretismo interessante com algumas filosofias considerados noutro tempo totalmente heréticas. O fato é que valores como a compaixão, humildade são conceitos cada vez menores em igrejas protestantes atuais. Oras, se assim existissem, as críticas da moral humana não seriam tão ferrenhas aos super-pastores que a cada dia prezam mais por uma elevação do poder e se esquecem da exaltação à fraqueza. O que é a onda de livros de auto-ajuda senão uma ode à certeza de que podemos nos superar e que para isto basta que nós mesmos queiramos?

Por outro lado, se a compaixão e humildade estritamente conceituais não fazem mais parte do vocabulário cristão o que dizer da culpa? Essa sem dúvida permanece, e isso se dá porque todo sincretismo traz incoerências. Se por um lado queremos nós mesmos chegar a um objetivo, por outro queremos que isso seja feito da maneira mais fácil possível, por isso pensar que o objetivo não alcançado na busca do poder se deu porque tivemos alguma culpa perante Deus. Se existiu tal culpa ela é unicamente por conta da própria busca insana por poder, de uma exaltação ao super-homem e pela incoerência de querer ser rotulado como cristão.



P.S.: Super-homem mesmo é o Lex Luthor

P.S.: Um dos únicos conceitos do qual mantenho discordância quase que total. É uma análise rasa para um pequeno paralelo, portanto não me batam por não ter aprofundado na questão social do conceito.

7 comentários:

Teo disse...

O paralelo ficou bem feito. Você não precisava pedir pra não te baterem por ter aprofundado o conceito, e podia ter falado o quanto quisesse sobre o paralelo. Sei que tem gente que não lê postagem grande, mas... ok, sem mas. Foi o suficiente.

Qual conceito você mantém total discordância? Não ficou claro, por incrível que pareça, hehe.

Raphael Rap disse...

Textos longos não são muito bem aproveitados ao menos por mim quando os escrevo...

O conceito que leva o título do texto.

Valeu pelo comentário cara!

Luma disse...

Há de se achar um equilíbrio e para isto queremos caminhar. Tem um video no TED que eu gostaria de postar no "Luz", porém quando embledamos, a legenda em português some - como já é difícil assistirem um video, imagina quando em inglês? - se puder acessar o link original e assistir - interessante que fala justo da compaixão, não essa a que Nietzsche diz que devemos superar, mas a que falta, a que ainda não existe em alguns humanos ou que está camuflada com a urbanidade que anestesia os olhos e sentimentos. Até faço alguma confusão, porque até onde nos ensinaram, é mais humano, aquele que sente mais compaixão e esta seria uma característica propriamente humana? Porque descartá-la? veja - http://migre.me/1FC7
Bom fim de semana! Beijus

Mano e Lívia - Os DelaSilva disse...

Entendo que a similaridade sugerida pelo texto entre fraco X humilde e forte X arrogante, é um equívoco herdado da senhora do vídeo.
Mesmo que apontem para horizontes parecidos, o endereço final é bem longínquo, e isto sem sequer utilizar os contextos bíblicos (pelos menos das passagens citadas).
Os vendedores tendem a confundir o cliente com o ressaltar de qualidades insignificantes do produto e o minimizar de seus defeitos. Uma das confusões oferecidas no vídeo é o parafrasear de Marcos 8:34 por parte da mãe da filosofa, onde ela (a filosofa) leva para uma interpretação bem conveniente à venda de sua argumentação.

Lou Mello disse...

Como diria um grande amigo, você escreveu o post que eu gostaria de ter escrito. Interessante notar que tudo começa com um desavisado fazendo uma pergunta ideal para a Viviane destilar seu veneno. No lugar dela, faria quase o mesmo. Fato é que a bronca do Nietzsche com a igreja, sobretudo com os pastores, é muito maior, em especial com a postura niilista adotada por eles. Creio que a resposta mais adequada ao platonismo neo-testamentário foi dada por Calvino e seus seguidores. O que vemos hoje não limpa as sandálias do homem de Genebra, sequer.

Kessia disse...

realmente compaixão e humildade são conceitos praticamente extintos, e quando citados, infelizmente o são de forma erronea..
a "humildade" é grande ao assumir a culpa, por outro lado, o orgulho ainda é maior diante de situações cuja unica explicação é a vontade de Deus..

quanto a Paulo, discordo que esse versiculo seja exaltação da fraqueza. A meu ver é exaltação da força divina...

bj!

Rahel disse...

... Paulo exalta sim a fraqueza. A mim parece claro. Tão claro quanto ele está exaltando ao mesmo tempo a força divina.

E o mesmo Paulo que exalta a fraqueza, também "cala" os corintios ao dizer que ele mesmo fala mais línguas do que todos eles ( 1 Coríntios 14.18).

Então não é bem assim que o cristianismo ressalta uma humildade-culpada-e-fraca. A culpa até onde eu agradeço, ainda que não deixe de sentir volta e meia, foi vencida por Cristo. A fraqueza e humildade é exaltação dos esquecidos, a quem Ele mesmo veio resgatar.

Ser humilde nada tem a ver com não ser confiante, portanto, aquela caricatura de uma pessoa humilde e coitadinha é "invencionismo"... mas ao mesmo tempo, é uma boa invenção pois combate um cristianismo falsamente humilde ou que não sabe o que é humildade.

Eu não sou humilde, mas procuro ser. Eu não sou confiante, mas procuro ser. Sem medo de ser mais ou menos cristão por isso.


Mas... há quem tenha medo de humildade e confiança.



.el.

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